As falhas no discurso de Neil deGrasse Tyson

Escrito por Artur Caliendo Prado em 22/08/2021

Como grande fã de astronomia, tenho grande admiração pelo trabalho do Neil deGrasse Tyson. Autor de vários livros e detentor de inúmeros prêmios, ele é referência no assunto e ficou mundialmente famoso ao apresentar a série Cosmos em 2014.

Gostaria apenas de frisar que esse texto não é uma crítica sobre o indivíduo, mas sobre a ideia, o raciocínio e o simbolismo que representa o problema central do que foi dito. 

Em um episódio recente em seu podcast, Startalk, Neil deGrasse conta sobre como ficava confuso com a preocupação das pessoas com a morte de golfinhos por causa da pesca de atum. Por que as pessoas se preocupam com os golfinhos, mas não com o atum?

Esse é um questionamento muito importante e que nos mostra o poder do especismo na nossa ética e nas decisões que tomamos. Afinal de contas, por que ficamos horrorizados ao saber que as pessoas, em alguns países, comem cães e gatos, quando fazemos o mesmo com vacas e porcos?

Mas, infelizmente, o discurso antiespecista dele mudou de rumo bem rápido. Segundo ele, as pessoas se preocupavam mais com os golfinhos e não com os atuns porque os golfinhos estão mais próximos dos mamíferos, ou talvez porque eles têm cérebros maiores.

A luta vegana fala muito sobre defender mamíferos não porque são mamíferos e, portanto, estão mais próximos da gente do ponto de vista evolutivo, mas simplesmente porque uma quantidade enorme de mamíferos morre todos os dias por causa de nossos hábitos alimentares, e já sabemos que nossa alimentação não precisa ser de base animal. Mais do que serem abatidos para nosso consumo, eles sofrem a vida toda por causa da busca incessante do capitalismo em produzir cada vez mais. Além disso, nossa luta não é só para salvar os mamíferos: aves, peixes e outros são grandes vítimas no carnismo.

Em relação ao tamanho do cérebro, não é o tamanho do cérebro que costuma impactar as escolhas das pessoas, mas a inteligência. As duas coisas costumam andar juntas, mas isso nem sempre é verdade. Contudo, inteligência não define valor de vida. Inclusive, isso vai contra nosso senso moral em quase todas as situações, ou um aluno que vai melhor na escola deve prevalecer sobre outro que tem dificuldade no aprendizado? Alto QI dá direito à pessoa a fazer o que bem entende?

Porcos são mais inteligentes que cães, mas ficamos horrorizados com a morte de cães enquanto comemos linguiça e bacon sem pensar duas vezes. Então não é sobre a inteligência, mas sobre nossa percepção distorcida e especista sobre eles.

Neil deGrasse diz que, ao proteger um animal mas comer uma planta, estamos escolhendo um pequeno galho da árvore da vida, decidindo que aquele é importante enquanto outros não são. 

Sua lógica segue sempre defendendo comer animais porque senão teríamos que defender toda forma de vida. É como se o Veganismo estivesse alegando que vamos sobreviver sem "matar" absolutamente nada, o que está muito longe da verdade. Esse é um raciocínio bastante comum, pelo qual eu mesmo já passei, e vem de uma barreira de nossa dissonância cognitiva tentando justificar nossos hábitos para que a gente não se sinta tão mal com o que fazemos.

Veganismo não é sobre não matar ou matar o mínimo possível, mas sobre a nossa relação com os outros seres. Não se trata de proteger tudo o que tem vida, porque isso é impossível, mas de proteger seres sencientes e conscientes.

Além disso, grande parte das plantações que existem hoje servem para alimentar os animais que serão abatidos para nosso consumo, então se você quer salvar o máximo de plantas que conseguir, o veganismo ainda é o caminho. Essas plantações são monoculturas, que degradam o solo e a vida silvestre à sua volta, sem falar nos pesticidas. Alô, Neil, pode matar insetos, mas não plantas?

Segundo a SVB, são necessárias cerca de 11 a 17 calorias de proteínas de grãos para criar cada caloria de proteína de carne bovina, suína ou de frango. Diminuir o consumo de carne também reduziria drasticamente a morte de plantas e seria possível alimentar toda a população mundial.

Nossa consideração moral não se baseia em proteger toda forma de vida, mas de proteger os seres sencientes. Plantas não sentem dor. Neil chegou a perguntar como a varíola se sentiu quando a erradicamos. Bem, ele sabe muito bem que ela não sentiu nada, porque ela é um micróbio e é, portanto, incapaz de sentir coisa alguma. Vamos questionar destruir doenças letais para defender nosso hábito de comer carne? Estamos mesmo tão desesperados? Esse discurso é perigoso, é o tipo de discurso que leva algumas pessoas a acharem que não devemos tomar vacinas.

Ele diz que não toma lado nem escolhe nenhum galho da árvore da vida, mas isso não é verdade. Ao consumir produtos de origem animal ele está escolhendo um lado, permitindo o massacre de bilhões de animais terrestres e trilhões de animais marinhos por ano com a desculpa de que se comer plantas elas também vão morrer.

Vale frisar novamente que menos plantas vão morrer se todos escolherem uma alimentação plant-based, e que quando falamos em moralidade estamos falando de senciência, coisa que as plantas não possuem. Veganos “matam” muito menos plantas do que não-veganos.

Neil deGrasse Tyson está tentando justificar o lado que ele escolheu, porque ali, como explica o Earthling Ed em seu vídeo Fact Checking Neil deGrasse Tyson, ali ele tinha duas opções: assumir seu especismo e parar de consumir animais, ou tentar justificar seu consumo de atum alegando que plantas também vão morrer se ele parar, que é moralmente a mesma coisa consumir animais e plantas.

Se toda vida é importante e tanto faz matarmos animais ou plantas, por que ficamos horrorizados com canibalismo? Tanto faz se um canibal come carne humana ou berinjela, certo?

Seguindo a linha lógica do Neil deGrasse Tyson, o que ele disse foi algo como "eu me importo com todas as formas de vida da árvore da vida, então, eu as mato o máximo possível".

Earthling Ed termina seu vídeo com uma provocação: se você está dirigindo seu carro e um cachorro entra na frente, e você se encontra na situação de escolher matar o cachorro ou desviar e passar por cima de uma plantação de rosas, o que você faria?

Pela lógica do Neil deGrasse, tanto faz. Atropelar intencionalmente o cachorro seria o mesmo que passar por cima das rosas, eticamente falando. É essa escolha que você faria?
 



Por Artur Caliendo Prado
Programador inveterado, aspirante a escritor e vegano convicto, dando um passo de cada vez em busca de um mundo mais verde.